Praia de Santa Catarina vira cemitério de pinguins

A Praia do Ervino é contígua à Praia Grande, em São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina. Juntas, as faixas de areia somam mais de 30 quilômetros de comprimento e são frequentadas sobretudo por pescadores locais. Mas entre janeiro e junho deste ano, as duas praias receberam novos visitantes: 150 pinguins foram encontrados nessa região – a maior concentração dos 2.567 monitorados na costa brasileira este ano. Do total dos animais, 71,5% deles chegaram já sem vida a orla.

De acordo com o balanço realizado pelo Projeto de Monitoramento de Praias (PMP) da Bacia de Santos, executado pela Petrobras – uma obrigação atrelada à concessão das licenças ambientais para desenvolvimento de atividades no mar brasileiro – o número representa o maior dos últimos cinco anos. E equivale a quase 30 vezes a quantidade de pinguins encontrados no mesmo período de 2019, quando foram achados 88 animais.

O percentual de óbitos também é elevado, mas já foi pior. Em 2018, 85,5% dos pinguins foram encontrados mortos pelo PMP. A gerente geral de licenciamento ambiental da Petrobras, Daniele Lomba, afirma que os principais causadores de danos aos animais encontrados na costa brasileira são a pesca e o lixo no mar.

“O PMP avalia a interação entre a atividade humana e a fauna marinha. O que observamos é que há uma relação com a situação socioeconômica do país, com a coleta de lixo e a falta de tratamento de esgoto, que chegam ao mar e acabam por afetar os animais”, disse Lomba.

Resgate de pinguim na Praia Grande, em São Francisco do Sul Foto: Márcio José de Novaes
Resgate de pinguim na Praia Grande, em São Francisco do Sul Foto: Márcio José de Novaes

“É lastimável ver tantos pinguins mortos aqui. A maioria deles presos em redes de emalhar, para a pesca da tainha, o que é ilegal. Quando a gente vê, vivo ou morto, a gente chama o monitoramento de praias e eles vem recolher os bichos”, conta a jornalista Ana Caroline Rohleder, moradora da Praia do Ervino.

O empresário Daniel Sprung vive no local há oito anos. Ele diz que os pinguins costumam aparecer nos dias de maré alta, quando a correnteza traz para a praia os pequenos animais, que têm por volta de 50 centímetros. Mas a mesma maré se encarrega de levá-los de volta para a água.

“Não é toda hora que você vai à praia e vê. E eu raramente chego perto, pois eles ficam ariscos e podem tentar avançar para se proteger”, disse Sprung. O recomendado é acionar o PMP para resgate assim que o pinguim for visto, manter animais domésticos afastados, não dar alimentos e nunca colocá-los no gelo.

Segundo o Projeto de Monitoramento de Praias, foram encontrados 2.567 pinguins em mais de 3 mil quilômetros de costa este ano Foto: Ana Caroline Rohleder
Segundo o Projeto de Monitoramento de Praias, foram encontrados 2.567 pinguins em mais de 3 mil quilômetros de costa este ano Foto: Ana Caroline Rohleder

A bióloga Jenyffer Vierheller Vieira, coordenadora do trecho 5 do PMP, onde está situado o município de São Francisco do Sul, afirma que a maioria dos pinguins encontrados nas praias Grande e do Ervino têm cerca de um ano de vida.

“Geralmente são pinguins jovens que estão realizando pela primeira vez uma longa viagem. Infelizmente, alguns deles se perdem de seus bandos e acabam encalhando nas nossas praias, apresentando um quadro clínico debilitado”, disse Vierheller.

As equipes do PMP fazem resgates diários de animais marinhos vivos debilitados. Os bichos são tratados até a estabilização do quadro clínico e, após recuperados, são ambientados para retornar à natureza. Os pinguins recebem chips para monitoramento e são soltos em grupos.

Nos animais mortos, o PMP realiza necropsia para identificar a causa do óbito e avaliar se houve interação com atividades humanas. De acordo com Vierheller, a maioria dos pinguins morre por afogamento, pois eles não têm muitos ferimentos no corpo e apresentam água no pulmão. Há também animais que se enroscam em petrechos de pesca ou ingerem lixo, como plástico, causando lesões muitas vezes fatais.

Originários do sul do continente, os animais são da espécie pinguim-de-magalhães. Nos invernos, eles nadam desde as Ilhas Malvinas, Argentina e Chile rumo ao litoral brasileiro para fugir do frio e buscar alimentos.

Coordenador do Programa de Monitoramento Ambiental da Bacia de Santos, o oceanógrafo Fernando Almeida explica que ainda não é possível afirmar a causa do aumento do número de pinguins vistos na costa brasileira. De acordo com ele, qualquer hipótese nesse momento será especulativa, pois são muitas as variáveis, que vão desde mudanças climáticas até o sucesso reprodutivo da espécie.

“O que se sabe é que o Brasil não é área de ocorrência desses animais, não há colônias deles no nosso litoral. Mas eles têm um padrão de circulação estabelecido, os animais migram aproveitando o padrão das correntes marítimas e acabam por se aproximar da nossa costa. Muitos chegam debilitados, não conseguem vencer as correntes e acabam encalhados”, disse.

A tendência é que o número de pinguins na costa brasileira cresça nos próximos meses, pois o período com maior ocorrência no país costuma ser nos meses de julho, agosto e setembro. Apenas na primeira semana de julho foram registrados 353 animais pelo PMP, 176 no estado do Rio de Janeiro.

São Francisco do Sul é a terceiro município com mais pinguins encontrados no Brasil: 267. Em primeiro lugar está Florianópolis, com 358 pinguins avistados nas praias da ilha, seguida por São Sebastião, em São Paulo, onde 323 animais foram resgatados em diversos pontos da costa. com https://epoca.globo.com

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