“Deixei o país com 5 malas e R$ 600 rumo à Alemanha, hoje tenho 3 empresas”

Quando eu tinha 17 anos, minha mãe teve meningite, eu fiquei sozinha para cuidar dela e da minha irmã de 4 anos. Quando esta irmã completou 18, surgiu a possibilidade de ir para Alemanha. Eu sonhava em ganhar dinheiro para pagar um tratamento melhor para mamãe, já que ela estava praticamente vegetando em uma cama ao longo de todos esses anos.

A oportunidade surgiu por acaso, eu tinha um salão de cabeleireiro em Cabo Frio (RJ), onde eu morava, e certa vez uma brasileira que vivia no exterior, foi no meu salão fazer o cabelo e me perguntou: ‘Por que que você não faz show de samba na Alemanha? Sempre me perguntam sobre mulheres que fazem show de samba, mas sou branca, e eles não se interessam por mim lá, você podia ir e fazer’. Achei a ideia boa, ela me passou um contato de lá, falei com eles, e 15 dias depois eu estava de partida para a Europa.

Em abril de 2000, eu desembarquei sozinha em Dresden, com 5 malas e R$ 600 no bolso (na época a moeda era o marco alemão e essa quantia dava quase 600 marcos).

Os primeiros três anos foram os mais difíceis. Aprendi alemão sozinha em oito meses, o que tornou minha vida bem mais prática e abriram-se mais portas. Eu já falava inglês, mas aqui eles aprendiam como segunda língua o russo, então poucos falavam inglês em Dresden.

Os meus primeiros três invernos também foram difíceis, não exatamente por causa do frio, que eu até gosto, mas pela falta de luz, que me deixava triste e desanimada. Para evitar cair em depressão, eu fazia bronzeamento artificial só para sentir aquela luz.

‘Troquei hospedagem por faxina’

Quando cheguei em Dresden, eu só tinha hospedagem para uma semana, que era na casa do dono de uma discoteca, (o contato que a moça havia me dado, não era de um grupo de samba, mas de um sujeito que gerenciava uma discoteca aqui). Eu tive que me virar para conseguir os contatos dos grupos que faziam esses shows de samba na Alemanha, então enquanto as músicas tocavam, eu subia no palco com roupa carnavalesca, e dessa forma, consegui alguns contatos.

A esposa do dono da disco estava morrendo de ciúmes de mim, aí no quarto dia eu deixei a casa deles e saí andando, procurando algum lugar para ficar, com pouco dinheiro. Vi uma loja de estrangeiros, eles falavam inglês e eu perguntei se conheciam alguém que alugava um quarto. Me deram o contato de um africano muito respeitoso, que atuava na política, e assim, ele permitiu que eu morasse na casa dele durante 6 meses em troca de serviços domésticos e faxina, e isso me ajudou bastante.

Comecei a dançar samba em um show folclórico brasileiro e depois fui morar em Frankfurt, onde se ganhava mais dinheiro. Viajava muito, trabalhava muito, sempre em eventos dos outros, grupos, clubes. Frankfurt era mais central e os voos sempre partiam de lá com destino a outros lugares e países.

‘Cilada: quase virei escrava sexual’

Antes de viver em Frankfurt, quando ainda estava em Dresden, nas minhas horas vagas da discoteca, eu me apresentava em aniversários, casamentos e festas dançando samba. Certa vez, recebi um convite para fazer um show de samba em uma outra cidade e por muito pouco não caí numa cilada. Um táxi pago pelo contratante me levou até o local, uma casa muito bonita e enorme, onde eu faria o show de samba em uma festa privada de empresa. Levei minhas fantasias de Carnaval e quando cheguei lá, era um bordel.

Notei que havia algo estranho quando vi um pole dance no palco. Eu fiquei apavorada. Antes de deixar o Brasil, eu havia pesquisado sobre a vida de brasileiros na Europa, e tinha lido que jamais deveríamos entregar nosso passaporte para um empregador, pois eles poderiam te fazer escrava sexual.

Um homem do local veio e pediu o meu passaporte, eu gelei. Disse que estava junto com as minhas fantasias e outras coisas no camarim e que ia buscá-lo.

Eu estava em uma cilada. Quando entrei no camarim, havia uma moça se arrumando, perguntei do que se tratava aquele local, e em inglês ela me respondeu ‘como assim? Isso aqui é um bordel. Por quê? Você não veio para ir para os quartos fazer programa?’

Eu desconversei, dizendo que topava fazer tudo, pois queria ganhar dinheiro, e em seguida, perguntei a ela onde poderia me trocar sozinha, pois estava tímida, e ela me indicou o quarto dela, onde recebia seus clientes. Eu levei as minhas coisas, vi que ninguém havia me visto e fugi, sai correndo pela rua. Era inverno, e estava nevando.

Eu andava rápido e escondida, com medo que eles me seguissem. Um frio danado, e eu não sabia onde estava. Aí passou um táxi e eu literalmente me joguei na frente do carro. Eu só dizia ‘help me’, mas ele entendeu o meu desespero.

Eu tentei me comunicar com ele usando um pequeno dicionário que eu carregava. Eu não tinha dinheiro pra corrida, porque era o contratante que pagaria, ele me levou de graça até Dresden, e esse taxista alemão é meu amigo até hoje.

‘Em 2008, montei meu próprio grupo de samba’

Depois de quatro anos vivendo na Alemanha, eu fui para o Brasil, fiz uma lipo e paguei excelentes tratamentos para a mamãe, que conseguiu sair da cama. Eu consegui dar a ela uma vida digna.

Após a morte da mamãe, eu deixei Frankfurt e voltei para Dresden, e em 2008, montei o meu próprio grupo de shows de samba. Tive que investir em fantasias para mim e o grupo, além de instrumentos musicais, trajes para todos os dançarinos, capoeiristas.

Em Dresden, eu não seria concorrente de ninguém, e logo de início fiz bastante propaganda, investi bastante e deu certo. Eu sou uma mulher com tino comercial, sempre fui, por mais dificuldades que eu tivesse no Brasil, cheguei a ter dois salões de cabeleireiro.

‘Vi na caipirinha uma nova oportunidade’

Anualmente acontece em Dresden um festival chamado Bundesrepublik Neustadt, uma festa muito doida e alternativa no bairro de Neustadt. Um sujeito queria montar uma barraca de coquetéis, mas eu nunca havia feito uma caipirinha na minha vida.

Daí, eu lembrei que uma brasileira aqui havia trabalhado em uma barraca de caipirinhas em Porto Seguro. Ela topou a ideia, e eu pedi um dinheiro emprestado a um amigo, compramos tudo que precisava, o dono cedeu o quiosque e trabalhamos lá, e foi um sucesso.

Após essa experiência, em 2009, comprei uma barraca desmontável e comecei a trabalhar vendendo caipirinhas em diversos festivais, e aí foram surgindo convites para festas. Eu incrementei o negócio, nós trabalhávamos fantasiados, com plumas e paetês, música na barraca, dançando, rindo e brincando com as pessoas.

Sempre formavam filas na nossa barraca. O diferencial não era apenas o sabor da caipirinha, mas o nosso jeito de ser.

‘Racismo na Alemanha? Nunca’

Eu nunca sofri racismo na Alemanha, a questão da cor da pele não faz diferença, se existe algum racista é algo raro. O preconceito aqui é contra estrangeiro no geral. Quando eu cheguei há 20 anos, a coisa era muito pesada e acho que ser mulher, jovem e bonita foi uma vantagem.

No Brasil, eu já fui barrada em um hotel em Copacabana. No café da manhã do hotel, uma funcionária segurou meu braço e disse que eu não poderia tomar café da manhã ali. Eles deduziram que uma mulher negra, tomando café da manhã em um hotel de luxo só podia ser uma prostituta que dormiu com algum gringo e que no dia seguinte se achou no direito de ir ao restaurante. Só podia ser isso né?

Esse tipo de situação eu nunca vivi na Alemanha e em lugar nenhum. Os problemas que eu tive na Alemanha foram por ser mulher, estrangeira e sozinha -com empregadores querendo tirar proveito, passar a perna.

‘Me incomodava usar peças pequenas para dançar’

Os meus shows são folclóricos, eu me inspirei um pouco nos shows do Plataforma Rio [extinta casa noturna carioca que exibia shows folclóricos], mas tem muita criação minha também. Quando eu montei o meu grupo, eu quis mudar um pouco, porque tinha coisas que me incomodavam. No Brasil por exemplo, você está dançando no Carnaval sob 40 graus, um calor danado, é justificável a gente usar aqueles biquínis pequenos.

Mas me incomodava usar essas coisas aqui, porque eu não queria ser vista de uma maneira sexista. Quando criei meu grupo, comecei a cobrir as minhas roupas. O que gringo quer ver é samba. Ele não faz questão de ver bunda. As bundas das dançarinas dos meus shows são cobertas, e os clientes gostam muito disso, porque eu trabalho para muitas empresas em eventos, não fica bem aquele monte de ‘popo’, os meus shows são também diferenciados neste sentido.

‘A crise em 2016 que gerou nova empresa’

Em 2016, houve em Dresden uma crise muito grande, um movimento xenofóbico na cidade, que matou o turismo na cidade e quebrou restaurantes e hotéis. Diminuiu muito os meus shows de samba e os coquetéis/bares móveis.

Eu estava desesperada, eu tinha que ganhar dinheiro. Passei a fazer limpeza sozinha, mas eu vi que não daria conta de atender a todos, aí montei uma equipe e chamei estudantes pra trabalhar comigo. Os brasileiros são ótimos para fazer limpeza.

Em 2018, criei uma empresa de limpeza. Eu já queria ter algo que funcionasse o ano inteiro, porque os shows e coquetéis são mais no verão. Agora, nessa pandemia, é isso que está me salvando porque a limpeza não parou.

Eu tenho uma vida estável hoje. Consigo oferecer oportunidades para outros brasileiros e estrangeiros refugiados que trabalham nos três negócios comigo. Posso dizer que sou uma pessoa vencedora. Não sou rica, mas tenho o suficiente para ter uma certa tranquilidade, paguei o tratamento da mamãe, dei uma casa para a minha irmã, e estou visando mais para o meu futuro.

‘Sem planos de viver no Brasil’

Eu gosto muito da Alemanha, não tenho vontade de voltar a morar no Brasil. As coisas aqui funcionam, são organizadas, as pessoas têm respeito. Moro no térreo, não preciso de grade, de alarme, nada dessas coisas que a minha casa no Brasil tinha, e que mesmo assim, foi assaltada. Moro sozinha, tenho um namorado alemão, mas não quero morar junto, acho que sou teimosa como eles.

Já realizei todos os meus sonhos. Cheguei aqui com 31 anos e sabia bem o que eu queria, não era nenhuma menina boba. Tenho alguns planos a realizar, mas Deus sempre mostra o caminho. Quero um dia abrir um teatro folclórico brasileiro em Dresden e trazer artistas do Brasil pra se apresentar por temporadas.

Eu sempre fui feliz, mas depois dos 50, eu tô me achando. Me casei aos 20, divorciei aos 25, percebi que casamento não é coisa pra mim. Adoro liberdade, não quis ter filhos. Eu amo a Deus, me amo, amo o próximo. Acho que liberdade e amor são o segredo da minha felicidade. com UOL

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